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Nostalgia do Terror figuras

Matéria gentilmente cedida por olendino Mendes.


Por Paulo Rensie.




Anos de Terror





O que aconteceu com as pequenas editoras de quadrinhos, no Brasil e nos EUA, no fim da década de quarenta, é magnificamente descrito em uma HQ clássica de Shimamoto, publicada pela Editora Outubro. Na história "Contos Macabros", um certo Sr. Nickles, pequeno (literalmente) editor da cidade de Baltimore, se encontra a beira da falência. Sem conseguir comprador para sua pequena editora, ele recebe a visita de um desconhecido que lhe oferece um pacote de originais de histórias-em-quadrinhos. Nickles, desinteressado, deixa os originais sobre sua mesa por várias semanas até que decide devolvê-los. Só então se dispõe a lê-los e descobre, com surpresa e divertimento, que eram histórias de terror. Mas suas zombarias duram pouco: uma rápida leitura das histórias o deixa apavorado. Trêmulo, ele liga para o autor, um certo Edwin Hurok. Tempos depois a Editora Nickles é a detentora do maior sucesso editorial dos Estados Unidos: a revista em quadrinhos "Sinister Tales". Não vamos contar aqui o desfecho surpreendente dessa história. Basta observar que em sua primeira parte ela descreve, com detalhes, o que aconteceu mais de uma vez na vida real: uma pequena editora faz sucesso com uma revista de um gênero novo. Seu sucesso provoca uma reação negativa das grandes editoras que passam a pressioná-la, principalmente alegando que tal tipo de revista deveria ser proibida. O público, no entanto, quer mais emoções fortes. O público? Mas quem são estas pessoas que pagam para ter pesadelos?


Segundo Álvaro de Moya, a primeira HQ de terror publicada no Brasil foi um episódio da série "Dr. Oculto", assinada por Leger e Reuths, que circulou em 1937 na revista Mirim. Leger e Reuths, vale lembrar, eram os pseudônimos de Siegel e Schuster, os criadores do Superman, origem e modelo de todos os super-heróis. Quase 70 anos depois, os quadrinhos de terror estão ausentes das bancas, mas o super-herói do momento, Spawn, é um morto-vivo que fez um pacto com o demônio e saiu da tumba para se vingar, bem ao estilo dos enredos clássicos de terror. Nada mais natural: os dois gêneros, terror e super-heróis, beberam na mesma fonte: os pulps policiais dos anos 30 e 40, com seus relatos fantásticos.
A primeira revista brasileira de quadrinhos de horror chamava-se O Terror Negro e surgiu em 1949. Curiosamente, ela foi primeiro a revista de um super-herói: o Black Terror, de Jerry Robinson e Mort Neskin. Foi o fracasso de vendas deste herói, palidamente calcado em Batman, que levou a Editora La Selva a aproveitar o título já registrado para publicar um pacote de histórias de terror norte-americanas. Foi um grande sucesso, com alguns números se esgotando completamente.
Lembra-se do pequenino Mr. Nickles? A história de Shimamoto não contava, mas nos anos cinquenta revistas como a Sinister Tales não eram mais encontradas nas bancas norte-americanas. O motivo já foi contado várias vezes, mas vou resumí-lo: um psiquiatra norte-americano de origem alemã, de nome Friedrich Wertham, escreveu um livro chamado A Sedução dos Inocentes, no qual atacava as histórias-em-quadrinhos, pretendendo que elas fossem uma forma de corrupção juvenil. Wertham chegou a colher depoimentos de adolescentes criminosos que, supostamente, tinham se inspirado na leitura de quadrinhos para realizar seus crimes. O livro causou comoção nacional (nos EUA) e desencadeou uma série de fatos que resultaram na criação do Comics Code Authority, que baniu de circulação as revistas de terror e violência. No Brasil isso apenas significou escassez de material novo para os editores, já que eles publicavam maciçamente o terror importado.
Entram então em cena, no Brasil, nomes que você talvez nunca tenha ouvido, mas que começaram a mudar a história dos quadrinhos brasileiros: José Sidekerskis, Victor Chiodi, Heli Otávio de Lacerda, Cláudio de Souza, Arthur de Oliveira e Miguel Falcone Penteado. Estes empresários, com grande visão, desencadearam o processo de formação do primeiro movimento consciente de defesa da HQ nacional, com a criação da Editora Continental (logo rebatizada como Editora Outubro). Esta editora somente publicava quadrinhos de autores nacionais. E não apenas terror, como muita gente pensa, mas quadrinhos de todos os gêneros, do faroeste ao infantil, do terror ao romance para as adolescentes. Mas foi sem sombra de dúvida, nas revistas de terror da Outubro, que se consagraram grandes nomes das HQ, como Flávio Colin, Júlio Shimamoto, Aylton Thomaz, Inácio Justo, Getúlio Delphim, Gedeone Malagola, Sérgio Lima, Juarez Odilon, Nico Rosso, Lyrio Aragão, Luís Saidenberg, Gutemberg Monteiro e tantos outros, sob a direção artística de Jayme Cortez.







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